É sempre um desafio tentar falar contigo sem que discutamos ao telefone.
Gostava que entendesses que há coisas da minha forma de ser que quero mudar porque inconscientemente terei magoado quem me rodeia. Ponto assente. Passemos à frente.
Por outro lado gostava que entendesses que existem outras tantas que eu não quererei mudar porque me fazem sentir bem, fazem parte de mim. Ponto assente também. Precisamos de avançar.
Não pretendo atingir a perfeição e gostava muito que não esperasses isso de mim senão vais disiludir-te com toda a certeza. Eu errei na forma de lidar contigo em muitas ocasiões (com mais pessoas, mas detenho-me agora na minha relação contigo), posso repetir-te as vezes que quiseres ouvir. No entanto não terei sido a única que errou. Se pensarmos bem, todos nós erramos uns com os outros, a vida não espera que sejamos perfeitos.
Quando dizes que na nossa relação sempre me protegeste pois como irmã mais velha achaste que essa seria a forma mais eficaz (ou mais conveniente ?), acabas por não te aperceber que isso pode significar que simplesmente não achaste que eu teria skills para lidar com essas mesmas situações, não me dando sequer espaço para que eu te pudesse mostrar que podias estar errada.Qualquer atitude minha serviria para confirmar que tu terias sempre razão, e assim pelos vistos continuas até hoje. A proteger-me e a achar-me "im-preparada" (termo inventado) para lidar com o que me acontece.A achar que só depois da tua intervenção é que as coisas ficam resolvidas. Ainda precisas disso se calhar.
As palavras que escolhes nas nossas conversas vão sempre bater na culpa, em como te assusta a minha forma irresponsável de agir, apenas porque temos pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto, como se apenas tu "visses a luz" ou tivesses sempre do lado do bom senso porque te preocupas em não magoar os outros e achas que eu estou-me pouco "cagando" para esse facto.
Creio que não te apercebes que também magoas, por isso parece que afinal também é possível acontecer-te sem que te apercebas. E ficas sempre a achar que eu penso cobras e lagartos da tua pessoa e achas que te culpo de merdas que só existem na tua cabeça. Eu pensei mal de ti, pensei-me melhor do que tu e também já te referi em que contexto. Ponto final. Não ando a culpar-te pelos erros da minha vida. Será que é isso que fazes comigo? Nem eu nem ninguém deve deixar de agir com medo de que qualquer atitude sua possa ferir sempre alguém, porque em última análise isso implicaria que ponderássemos tudo a qualquer passo que damos. Deixaríamos de viver, passaríamos a andar com uma cartilha de "do's and don't do's" para tudo. Sei que entendeste o que quis dizer com isto quando to disse hoje. Se por respirar ou existir posso magoar alguém, será que devo deixar de ser ou respirar? A minha resposta é não. Azarito.
Preocupo-me com os outros. Mas sempre me preocupei mais com os outros e errei. Acho que me devo preocupar comigo sem esquecer os outros. Por esta ordem. Mas deves arranjar espaço no teu entendimento para aceitares que há coisas que para mim são "verdes" e para ti serão sempre "vermelhas" e gravíssimas. Posso até aceitar o motivo que te leva a interpretar tudo o que digo ou faço com uma conotação de falta de respeito, de .... o que lhe quiseres chamar, mas se conseguires faz um esforço para me dares o benefício da dúvida. O que pensas que eu faço, digo ou como escolho agir não implica que signifique o que interpretas. Pensa nisso. Tira esse peso de cima de ti. Isso desgasta-te, é pesado. Não procures só os meus defeitos, pois vais encontrá-los. Tenta ver o que tenho de bom. Se conseguires. Se quiseres.
Teremos de aceitar que apesar dos laços que nos unem somos diferentes , pensamos de formas diferentes, agimos de formas diferentes e isso não tem de ser dramático, apenas diferente sem catalogar quem é melhor ou pior.
E eu terei de aceitar que embora a nossa relação já tenha sido bastante forte no passado, consistente e próxima, vejo cada vez mais longe a possibilidade de voltar a ter esse tipo de relação contigo. Já o vi e senti como dramático. Felizmente consigo até sorrir agora quando penso nisso. Sem dramas. Já basta os que temos e são bem reais. Não há necessidade de inventar mais uns.
Eu estou à procura de me fazer feliz em primeiro lugar, de me conhecer melhor, de mudar formas que considero lesivas de mim para mim, e de mim para os outros. Não estou à espera que os outros mudem para eu mudar. Senti essa necessidade pelos motivos que sabes. Dizeres que não mudas certas atitudes tuas (embora as saibas erradas, ou até agressivas) enquanto eu não mudar outras minhas....não é nada! A isso chama-se inflexibilidade. Enfim. Seguirás o caminho que achares melhor. Em todo o caso eu irei continuar o meu sem te pedir que mudes, pois não são as mudanças dos outros que preciso, são as minhas.
Teremos a relação possível. Não a relação que idealizei.
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